ENTREVISTA

Air Supply fala à Rolling Stone sobre shows no Brasil, história e 50º aniversário

Dupla famosa por baladas como ‘All Out of Love’ e ‘Making Love Out of Nothing at All’ se apresenta em maio nas cidades de Porto Alegre, Florianópolis e São Paulo

Pedro Hollanda (@phollanda21)

Graham Russell e Russell Hitchcock do Air Supply em 2026: (Foto: Medios y Media / Getty Images)
Graham Russell e Russell Hitchcock do Air Supply em 2026: (Foto: Medios y Media / Getty Images)

Mesmo que alguém não saiba identificar o Air Supply, a probabilidade de conhecer ao menos uma música da banda é alta. A dupla australiana de soft rock, fundada em 1975, é responsável por algumas das baladas mais famosas da história e em maio vai tocar todos esses sucessos no Brasil.

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, o vocalista Russell Hitchcock falou sobre os três shows do grupo no país: 5 de maio no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre (ingressos via Bilheteria Digital); 9 de maio na Arena Opus, em Florianópolis (ingressos via Uhuu); e 10 de maio na Vibra, em São Paulo (ingressos via Ticket 360). As apresentações fazem parte da turnê comemorativa dos 50 anos de carreira, uma marca que o cantor nem consegue acreditar ter atingido:

“Lembro de estar em Taiwan durante nosso 20º aniversário [em 1995] e falar para o Graham [Russell, a outra metade do Air Supply]: ‘Consegue acreditar que já faz 20 anos?’ E isso já foi há 30 anos! Temos meio século de estrada agora. Inacreditável.”

A relação do Air Supply com o Brasil, consolidada por 12 turnês locais até hoje, é ainda mais antiga que essa conversa citada por Hitchcock. A primeira visita ocorreu em 1993, carregado pelo sucesso da música “Goodbye”, presente na trilha da novela O Mapa da Mina. Apesar de um retorno não ter ocorrido até 2008, o público local deixou sua marca na memória do frontman.

“Sempre ficamos empolgado de tocar aí porque o público pira. Gostam de cantar muito, fazer barulho, se abraçar, beijar, chorar, o que seja. Vocês mostram bastante suas emoções e a gente ama isso. Acho que nossa música sempre foi romântica, sincera, simples, direta pro coração. E a relação com os fãs é fortalecida toda vez que a gente volta.”

História: Jesus Christ Superstar e Rod Stewart

Meio século atrás, Russell Hitchcock e Graham Russell eram apenas dois músicos amadores sem experiência na indústria. Calhou que o primeiro trabalho de ambos num palco de verdade foi como parte do coro de uma montagem australiana do musical Jesus Christ Superstar em 1975. A dupla logo percebeu ter origens parecidas de classe trabalhadora, além de amor pelos Beatles:

“Tínhamos tanto em comum a ponto de ter sido uma questão de semanas após nos conhecermos para começarmos a colaborar. E foi por insistência dele, porque a gente cantava algumas coisas dos Beatles juntos, de brincadeira. A gente achava que soava bom. Mas ele era o cara que tinha a ambição para, primeiramente, estar preparado quando o musical acabasse a temporada.”

A montagem australiana de Jesus Chris Superstar terminou após 18 meses em cartaz e, a esse ponto, o Air Supply já havia lançado seu single de estreia, “Love and Other Bruises”. A canção foi um sucesso na Austrália, assim como o primeiro álbum, Air Supply (1976), mas o estouro veio a partir do segundo disco, The Whole Thing’s Started (1977).

A banda foi escalada para abrir uma turnê de Rod Stewart pelo país e o cantor britânico ficou tão impressionado com a ponto de levá-los para a América do Norte. Segundo Hitchcock, além da exposição que veio por conta disso, a experiência de ver o artista toda noite foi inestimável:

“Abriu os olhos para uma nova realidade, porque naquela época ele era o maior astro do planeta. Além de ser incrível ser exposto a tanta gente, também assistimos ao show dele toda noite sem falta para aprender do melhor que tem: sobre engajar com pessoas, perceber o humor do público e decidir o que precisava ser feito para fazer acontecer.”

Apesar desse aprendizado todo, o grupo teve de recomeçar quase que do zero ao retornar para a Austrália em 1977. O motivo? A imprensa local já não lembrava mais deles. Felizmente, dariam motivo para ninguém mais esquecer da banda.

Jim Steinman numa sorveteria

Em 1979, o Air Supply conseguiu outro hit na Austrália com a música “Lost in Love”. Entretanto, esse sucesso logo se tornaria mundial, porque a canção chamou a atenção do lendário executivo musical Clive Davis, da Arista Records.

O cartola identificou o potencial da faixa e encomendou um remix para os Estados Unidos, onde chegou à 3ª posição das paradas. Russell Hitchcock ainda lembra da sensação de escutar “Lost In Love” numa rádio americana pela primeira vez:

“Lembro de estar dirigindo pela Sunset Boulevard em Los Angeles, vivendo o sonho de estar na cidade no verão, num conversível, e a canção começa a tocar no rádio. Eu precisei parar o carro no acostamento. Eu estava em choque. Não conseguia acreditar que nosso single estava tocando em Los Angeles. E de lá pro resto do mundo.”

O álbum Lost in Love (1980) emplacou três singles no Top 5 americano, incluindo um dos maiores hits da carreira da banda, “All Out of Love”. A música até superou a marca de “Lost in Love”, porque chegou à 2ª posição nas paradas americanas.

Outro sucesso imortal envolveu uma das figuras mais idiossincráticas da história da música pop. Segundo Hitchcock, o empresário da banda, Don Arden, sugeriu ele e Graham Russell fazer uma coletânea de sucessos em 1983. A ideia parecia arriscada à dupla, porque o grupo a esse ponto só tinha dois discos bem-sucedidos nos Estados Unidos.

Entretanto, Arden tinha uma carta na manga. A compilação teria uma música inédita, “Making Love Out of Nothing at All”, escrita por Jim Steinman. O compositor americano era famoso por sua parceria com Meat Loaf no álbum Bat Out of Hell (1977), um dos maiores sucessos da história musical até ali. E o primeiro encontro entre ele e o Air Supply foi num lugar inusitado, conforme contou Russell Hitchcock:

“Ele tocou a música pra gente numa sorveteria em Nova York. Lá estava ele, com luvas de motoqueiro que iam até o cotovelo, tomando sorvete. Hilário. A canção tinha 20 minutos, bem a cara dele. Mas a gente amou. Ele trabalhou mais um pouco na composição e a gente gravou. Foi um daqueles momentos que você precisa se beliscar. Um dos maiores compositores de todos os tempos. Aí você entra no estúdio para encontrar Max Weinberg e Roy Bittan, da banda do Bruce Springsteen, na bateria e no piano. Rick Derringer tocou o solo de guitarra. Só lendas.”

O single de “Making Love Out of Nothing at All” vendeu 5 milhões de cópias nos Estados Unidos e atingiu a 2ª posição nas paradas dos EUA. Ironicamente — e como o vocalista fez questão de apontar durante a entrevista —, a música responsável por manter o Air Supply longe do topo foi outra composição famosa de Steinman: “Total Eclipse of the Heart”, gravada por Bonnie Tyler.

O legado do Air Supply

Após 50 anos de estrada, Russell Hitchcock encara o legado do Air Supply com gratidão. Por isso, sente uma responsabilidade de reciprocar o amor dos fãs através das melhores performances possíveis:

“Uma das razões pelas quais continuamos na estrada é que a alegria de ver o público reagindo às canções continua viva conosco. O fã pode ter tido um dia ruim. Obviamente o mundo está um caos agora. Então, ser capaz de subir num palco, tocar por umas horas e tirar todo mundo desse estresse, levá-los ao momento no qual escutaram uma certa música pela primeira vez. Ou até mesmo se só escutaram recentemente. Há muitos jovens vindo aos shows. Perceber que você cativou alguém. Isso é importante.”

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Pedro Hollanda é jornalista formado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso e cursou Direção Cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Apaixonado por música, já editou blogs de resenhas musicais e contribuiu para sites como IgorMiranda.com.br, Scream & Yell e Rock'n'Beats.
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