ENTREVISTA

Dave Mustaine fala à Rolling Stone sobre ‘adeus’ do Megadeth, Brasil e jiu-jitsu

Ícone do thrash metal e faixa-preta de BJJ traz turnê de despedida de sua banda ao país neste sábado, 2, para show único no Espaço Unimed, em São Paulo

Igor Miranda (@igormirandasite)

Dave Mustaine, vocalista e guitarrista do Megadeth, em 2026 (Foto: Jeremychanphotography / Getty Images)
Dave Mustaine, vocalista e guitarrista do Megadeth, em 2026 (Foto: Jeremychanphotography / Getty Images)

“Acho que talvez a gente toque mais uma vez no Brasil depois dessa.” Logo em sua primeira resposta durante entrevista à Rolling Stone Brasil, Dave Mustaine tratou de oferecer alguma tranquilidade aos fãs que não conseguiram comprar ingressos para o disputado show do Megadeth no Espaço Unimed, em São Paulo, neste sábado, 2.

No fim de outubro — antes mesmo de dar início à sua turnê de despedida This Was Our Life —, a importante banda americana de thrash metal anunciou que visitaria o país em compromisso único. Não foram necessárias nem mesmo duas semanas para que todas as 8 mil entradas se esgotassem. Tudo isso a seis meses da performance ocorrer. A situação criou expectativa por uma data extra em território nacional, mas não havia espaço na agenda apertada de compromissos na América Latina — contemplando também Peru, Colômbia, Argentina, Chile e México.

O vocalista, guitarrista, líder e único a participar de todas as formações declarou:

“Se tivéssemos mais tempo, tenho certeza de que teríamos feito um segundo show. Acho que se o produtor tivesse conseguido um lugar maior, isso poderia ter sido um sucesso. Mas não sei: o produtor com quem trabalhamos [empresa Mercury Concerts] é muito inteligente, ele conhece o público latino-americano, então eu confio nele.”

Megadeth (E-D): James LoMenzo, Dirk Verbeuren, Dave Mustaine, Teemu Mäntysaari (Foto: Ross Halfin)

A relação entre Megadeth e Brasil vem de longa data. O próprio Mustaine, hoje com 64 anos, cita: “nos tornamos amigos em 1991, durante o Rock in Rio, e desde então é ótimo tocar aí”. Seu grupo já nos visitou 16 vezes, com direito a dobradinha num mesmo ano: em abril de 2012, tocaram no malfadado festival maranhense Metal Open Air e retornaram após quatro meses e meio para subir ao palco do hoje extinto Via Funchal, na capital paulista. Citando nomes de cidades brasileiras com rara desenvoltura entre gringos, Dave reflete:

“Gostaria que fizéssemos uma turnê brasileira de verdade, porque tocamos em tantas cidades no Brasil ao longo dos anos. Ir aí e tocar apenas em São Paulo e não no Rio, Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza, Brasília ou qualquer outro lugar que já visitamos ao longo dos anos… faz parecer que não estamos tocando em lugares suficientes antes de dizer ‘adeus.”

O “adeus” do Megadeth

Em agosto do ano passado, o Megadeth pegou seus fãs de surpresa ao anunciar que abandonaria os palcos após um álbum final e uma turnê de despedida. Nos dias anteriores, o público especulava apenas a respeito de um novo disco. O material em questão foi lançado no fim de janeiro, levando como título apenas o nome da banda. Atingiu o topo das paradas de 11 países — incluindo Estados Unidos, pela primeira vez na carreira do grupo — e top 5 em outros 13. “Em 24 países estávamos no top 5 ou acima: é muito gratificante”, celebra Dave Mustaine.

É por causa do cantor e guitarrista que a banda, fundada por ele próprio em 1983 após demissão do Metallica, irá encerrar atividades. Mustaine lida com uma série de limitações físicas provocadas pelas décadas na estrada: artrite nos dedos, Contratura de Dupuytren (fibras musculares “travadas”) na mão esquerda; paralisia do nervo radial do lado esquerdo; e problemas no ombro devido ao peso da guitarra. Além disso, venceu um câncer na garganta em tempos recentes, mas a doença deixou marcas adicionais em uma voz naturalmente impactada pela idade.

“Acho que, neste momento, os fãs estão meio divididos quanto à despedida, porque sabem que há algo errado com a minha mão, minhas costas e no meu pescoço. Ficou mais difícil fazer turnês tanto quanto fazíamos. Então, vou aproveitar ao máximo enquanto estivermos na estrada. Quando subo no palco, não tenho quatro ou cinco velocidades diferentes. Eu tenho as velocidades ‘zero’ ou ‘tudo no máximo’.”

Dave Mustaine, líder do Megadeth, em 2025 (Foto: Per Ole Hagen / Redferns)
Dave Mustaine, líder do Megadeth, em 2025 (Foto: Per Ole Hagen / Redferns via Getty)

Por outro lado, não há prazo estabelecido para encerrar a turnê de despedida. Mustaine chegou a brincar que pode durar até cinco anos, de modo a completar seu 70º aniversário ainda no palco junto do Megadeth. Caso a previsão se concretize, haverá tempo de sobra para promover alterações no repertório dos shows. Uma delas ocorreu já nesta etapa latino-americana da turnê: a entrada de “Ride the Lightning”, música do Metallica coescrita por Mustaine e regravada para o álbum de despedida de sua banda.

À época da entrevista, a faixa ainda não havia obtido sua primeira execução ao vivo. Dave havia antecipado que a tocaria no Brasil, mas tratou de dar importância a todo o catálogo de seu grupo.

‘Ride the Lightning’ faz parte da minha carreira musical e eu acho que a música ficou realmente ótima no disco, mas temos mais de 200 músicas para escolher. Temos muitas faixas diferentes, raridades, que estamos revisando e nos preparando para tocar. Eu não diria que ‘Ride the Lightning’ é melhor do que qualquer música do Metallica ou do Megadeth. Acho que é uma boa música, mas as músicas do Megadeth são igualmente boas — e se eu não tocar uma música em uma noite, não é motivo para as pessoas não quererem ir ver o show.”

Em algum momento da atual turnê, outras duas canções do novo álbum do Megadeth também devem entrar no setlist. “Devemos adicionar ‘Hey God’ e ‘Puppet Parade’. São duas músicas que os fãs realmente gostam”, declara o artista.

Parceiro de seis cordas

Caso tudo siga da forma como está, a formação final do Megadeth terá Dave Mustaine nos vocais e guitarra, Teemu Mäntysaari na guitarra, James LoMenzo no baixo e Dirk Verbeuren na bateria. O grupo se notabilizou por constantes mudanças de integrantes, especialmente a partir do fim da década de 1990. Duas delas ocorreram no ciclo do álbum anterior, The Sick, the Dying… and the Dead (2022): o baixista de longa data David Ellefson acabou demitido ainda em meio às gravações após o vazamento de vídeos íntimos online, enquanto o guitarrista brasileiro Kiko Loureiro se afastou no meio da turnê para estar mais próximo da família.

Se a solução para a vaga de Ellefson foi caseira — LoMenzo já havia feito parte do grupo entre 2006 e 2010 —, Loureiro trouxe um elemento totalmente novo para substitui-lo. Mäntysaari é finlandês e havia feito carreira com a banda Wintersun, bem menos conhecida. Foi indicado e treinado pelo próprio Kiko, agradando bastante ao chefe Dave. “Foi um pouco mais fácil trabalhar com Teemu, talvez por causa do histórico dele [nota: é um guitarrista de formação mais tradicional no heavy metal em comparação ao brasileiro], mas Kiko Loureiro era realmente um profissional e vejo nosso tempo juntos como uma experiência positiva”, reflete.

Dave Mustaine, vocalista e guitarrista do Megadeth (Foto: Mariano Regidor/Redferns)
Dave Mustaine, vocalista e guitarrista do Megadeth (Foto: Mariano Regidor / Redferns via Getty)

Uma recente excursão ao lado do Exodus, colegas de thrash metal do Megadeth, mostrou que até mesmo colegas de outras bandas se impressionam com a precisão de Teemu Mäntysaari na guitarra. Mustaine conta:

“Quando começamos a turnê canadense, os caras do Exodus começaram a chamar o Teemu de algum tipo de nome que brincava sobre ele ser como Yngwie [Malmsteen, um dos maiores virtuosos da história da guitarra]. Achei ótimo! Realmente gosto do Gary [Holt, guitarrista do Exodus]. Gary e eu somos amigos há muito tempo. Ele foi um dos meus primeiros amigos no metal. Eu costumava dizer que era o Scott Ian [Anthrax], mas me lembrei que Gary e eu nos tornamos amigos antes mesmo de eu conhecer o Scott — que também é um cara legal.”

Novo livro

Além de álbum e turnê de despedida do Megadeth, Dave Mustaine traz mais uma novidade ao público. Seu terceiro livro de memórias — e segundo feito de forma individual —, In My Darkest Hour: A Memoir, será lançado no exterior em 8 de setembro. Coescrita com o autor Joe Layden, a autobiografia narra como o artista enfrentou seu diagnóstico de câncer.

Em 2019, médicos informaram a Mustaine que ele estava com um carcinoma de células escamosas na parte de trás da língua. O livro irá detalhar como ele reagiu com uma nova determinação para fazer música, indo de consultas de quimioterapia e radiação para sessões de gravação do citado álbum The Sick, the Dying… and the Dead!, bem como aborda reflexões sobre mortalidade e como família e fé serviram de refúgio.

“O livro fala sobre o diagnóstico de câncer e o tratamento e a gravação do álbum enquanto passávamos por tudo isso: a situação infeliz com a qual tivemos que lidar, com a questão do baixista [David Ellefson]. Tudo isso está lá, mas sem malícia, sem coisas mal intencionadas. Só há coisas positivas discutidas ali.”

Dave Mustaine, líder do Megadeth (Foto: Katja Ogrin / Redferns)
Dave Mustaine, líder do Megadeth (Foto: Katja Ogrin / Redferns via Getty)

A grande motivação de Mustaine ao escrever o livro é oferecer motivação a outros pacientes de doenças graves, como o próprio câncer.

“Acho que é encorajador para pessoas doentes ou recém-diagnosticadas, porque sei por experiência própria que, quando fui diagnosticado, foi assustador. Só não foi tão ruim quanto eu pensei que seria por causa do apoio que eu tive. Então, quando surgiu a oportunidade de fazer o livro, pensei: ‘sim, farei isso porque quero garantir que ajudo outras pessoas’.”

Jiu-jitsu

Uma das grandes provas da resiliência de Dave Mustaine é que mesmo após tantos problemas de saúde, ele não abandonou uma de suas grandes paixões: artes marciais. O líder do Megadeth, antigo praticante de karatê e taekwondo, apaixonou-se pelo jiu-jitsu brasileiro (BJJ) na década passada. Desde então, manteve seu foco até que, em dezembro último, tornou-se faixa preta nesta arte.

Perguntado sobre a maior lição que teve por meio do jiu-jitsu brasileiro — cujo objetivo principal é levar o oponente ao chão e controlar a posição —, Mustaine brinca antes de responder seriamente:

“Meu grande aprendizado com o jiu-jitsu brasileiro? Não chorar! [Risos.] No primeiro dia em que treinei, tive uma lesão muito séria na costela, porque só fui ensinado a usar minhas mãos e meus pés: socar e chutar. Então, isso é uma experiência totalmente nova para mim. Quando fui ao chão, o Professor Reggie [Almeida] caiu em cima de mim. Eu pensei que ia morrer porque ele pesa cerca de 118 kg e ele tem uns 1,93 m de altura. Eu peso 79 kg e tenho cerca de 1,83 m, então ele é muito maior do que eu. Aprendi a fazer do chão meu amigo, porque todas as lutas vão acabar com alguém no chão, a menos que você se afaste.”

Dave aproveitou a ocasião para propagar a mensagem da paz. O músico já admitiu várias vezes ter sido um brigão, mas hoje garante: “Sou muito pacífico. A última briga que tive foi provavelmente há 20 anos”. E complementa:

“A melhor coisa a se fazer em uma briga é sair de perto. Quando vão começar a brigar com alguém, no caso da maioria das pessoas, a raiva domina o senso comum. Elas querem provar um ponto. ‘Eu estou certo’, ‘você está errado’, ‘eu sou forte’, ‘não sou fraco’. A maioria dos caras que saem brigando por aí não são lutadores. Você ve direto no Instagram vídeos de caras que agem como se fossem durões até aparecer alguém que fala: ‘olha, eu não quero problemas’. De repente, antes que você perceba, o cara que estava causando o problema está chorando e pedindo pela mamãe porque levou uma surra.”

Rolling Stone Brasil: revista especial com Korn

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Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pós-graduado em Jornalismo Digital. Começou em 2007 a escrever sobre música, com foco em rock e heavy metal. É colaborador da Rolling Stone Brasil desde 2022 e mantém o site próprio IgorMiranda.com.br. Também trabalhou para veículos como Whiplash.Net, revista Roadie Crew, portal Cifras, site/canal Ei Nerd e revista Guitarload, entre outros. Instagram e outras redes: @igormirandasite.
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