COACHELLA 2026

O poder latino foi palpável no histórico show de Karol G como headliner do Coachella

Nos bastidores e na plateia enquanto a estrela pop colombiana faz o maior show de sua carreira até agora: energético, sexy e politicamente contundente

ROLLING STONE EUA

Karol G
Foto: Kevin Mazur/Getty Images para Coachella

Karol G passou os últimos três anos fazendo história. Em 2023-24, sua turnê revolucionária Mañana Será Bonito (2023) a tornou a primeira artista latina a liderar uma turnê global em estádios, vendendo mais de um milhão de ingressos em 12 países. Neste fim de semana, ela alcançou mais um marco ao se tornar a primeira latina a ser atração principal do Coachella — e seu set explosivamente energético, intensamente sexy, mas ao mesmo tempo pé no chão e socialmente consciente, pareceu a maior noite de uma carreira que já teve muitas inesquecíveis.

A energia no Karolchella, como os fãs chamaram a apresentação de domingo à noite, estava no auge. O elaborado design do palco principal incluía uma estrutura de caverna de pedra de três andares (provavelmente uma referência às diversas cavernas de sua Colômbia natal) que exigiu tempo extra para ser montada. Enquanto o público via os últimos ajustes serem feitos no cenário, atrasando o início do show em cerca de 25 minutos, entoavam “bichota” e “Karol”, enquanto balançavam bandeiras de toda a América Latina e do Caribe.

Quando o palco ficou pronto, o público ouviu uma história (narrada por Karol em espanhol e projetada nas telas em inglês) sobre uma garota que precisou romper com expectativas sociais para encontrar sua voz, e que usou essa força para criar luz, água, fogo e vales. Assim que a história terminou, vários jatos de chamas começaram a disparar, e Karol G, ao lado de um grupo de dançarinas, abriu com “Latina Foreva”. Embora dançarinos homens tenham se juntado ao set em vários momentos, o foco claro e intencional nas mulheres ao longo do show contribuiu para a energia de empoderamento. Outras artistas mulheres também foram ver esse momento histórico: Young Miko, Lizzo, Camila Cabello e Becky G foram vistas assistindo atentamente, no meio da multidão, bem ao lado do palco.

Ao longo de 90 minutos, com seis trocas de figurino que iam de looks ‘mulher das cavernas’ a um clima tropicoqueta, e quatro áreas de palco diferentes e imaginativas, Karol G hipnotizou o público com vocais impressionantes e uma coreografia agressiva, porém sensual, de Parris Goebel. O set reuniu 20 músicas próprias (incluindo os hits “TQG” e “Amargura”), um cover de “Mi Tierra”, de Gloria Estefan, um mini-set de quatro músicas do pioneiro do reggaetón Wisin, e canções com o Mariachi Reyna de Los Angeles (o primeiro grupo profissional de mariachi formado só por mulheres nos EUA). Outros convidados musicais incluíram Mariah Angeliq, que se juntou a Karol no hit “El Makinon”; Becky G, que subiu ao palco para uma versão mariachi de “Mamii”; o cantor e guitarrista do Cigarettes After Sex, Greg Gonzales, para a estreia da música “Después de Ti”; e o músico de jazz cubano-americano Arturo Sandoval no trompete durante “Ivonny Bonita”.

A música “Ivonny Bonita” é baseada no alter ego ousado e destemido de Karol G, que surgiu em um período sombrio para a artista. No ano passado, ela disse à Rolling Stone EUA: “Se Carolina não conseguir sair dessa, Ivonny vai conseguir”. O show inteiro demonstrou como a ousadia de Ivonny passou a fazer parte de Karol G.

Embora o set histórico tenha sido deliberadamente sexy, com muita dança colada, twerk e roupas ornamentadas, porém mínimas, o momento mais indulgente (e escorregadio) do show aconteceu dentro de uma piscina pequena e rasa, esculpida em pedra e iluminada como quartzo. Karol G e suas dançarinas se transformaram em deusas da água em biquínis prateados minúsculos.

Na primeira vez de Karol G no Coachella, em 2022, ela homenageou ícones da música latina como Selena, Celia Cruz, Daddy Yankee e outros, com um medley de seus maiores sucessos. Com o governo dos EUA continuando a criminalizar latinos e a língua espanhola, a apresentação de Karol G no domingo tinha um peso ainda maior. Em setembro passado, ela disse à Rolling Stone: “Tenho a honra de representar os latinos. Sinto uma responsabilidade. Quero entregar algo do meu coração que represente meu amor pela minha comunidade e pelos meus fãs”.

Antes de começar o cover de Gloria Estefan, Karol G fez um discurso sobre o significado daquela noite e daquele momento, também no sentido político. “Eu sou Carolina Giraldo, de Medellín, Colômbia, e hoje eu sou a primeira mulher latina a ser atração principal do Coachella”, disse ela ao público do festival. “E eu estou muito feliz e muito orgulhosa disso, mas ao mesmo tempo, parece tarde. São 27 anos desse festival acontecendo, e é a primeira vez que uma garota latina é headliner do Coachella”.

Ela também apontou os desafios políticos enfrentados por comunidades latinas hoje. “Isso é para meus latinos que têm sofrido neste país ultimamente. Nós estamos com eles, eu estou com minha comunidade latina… tenham orgulho, levantem sua bandeira”. Nas telas ao lado dela, aparecia o texto “orgullosamente Latinos” (“orgulhosamente latinos”) e “poderosamente imparables” (“poderosamente imparáveis”).

Enquanto bandeiras da América Latina e do Caribe ondulavam por um gigantesco mar de fãs, com várias pessoas usando os chapéus colombianos pretos e brancos de fibra de cana conhecidos como sombreros vueltiaos, uma garotinha, sentada nos ombros de quem a acompanhava, gritava de alegria. Como uma latina que vem ao Coachella desde criança (na verdade, estive no primeiro Coachella, em 1999), não consigo imaginar o quanto teria sido poderoso ver uma latina como atração principal quando eu era mais jovem. Mas Karol dominou o Coachella ontem à noite. E seu sucesso me dá fé de que esta não será a última vez que uma latina será headliner desse festival icônico.

No meio de “Si Antes te Hubiera Conocido”, a headliner latina anunciou que precisava encerrar o show e queria tocar “Provenza”, música que ela estreou em seu set do Coachella de 2022. A apresentação final explosiva transitou para o remix de Tiësto antes de uma explosão de confetes, e Karol fez uma última reverência ao lado de suas dançarinas.

De mulheres despejando água sobre Karol, batizando-a na piscina esculpida em pedra, ao foco nítido em convidadas e dançarinas mulheres, o show foi uma aula de empoderamento feminino. A projeção em vídeo da silhueta de Karol removendo cada peça de roupa foi profundamente significativa no contexto dos temas do set: que, ao abraçarmos nossas vozes autênticas e nosso eu interior, e ao nos libertarmos das expectativas, desbloqueamos nossa verdadeira força. Com o apoio de Goebel, que atuou como diretora criativa e coreógrafa da noite, Karol G literalmente se revelou por completo no domingo à noite. Não vimos seu alter ego Ivonny, nem necessariamente Karol G. Pareceu mais que, enfim, vimos a Carolina destemida de Medellín, Colômbia. E ela é incrível.

Antes de sua apresentação como headliner, Karol G provocou o público sobre o set em conversa com a escritora Paola Ramos, em uma entrevista para a Playboy, e observou que este ano tem sido um ano de “que se dane”. Ela também disse: “É a primeira vez na minha vida que eu sinto que vou me ver como artista no mesmo calibre do palco em que estou pisando”. E é mesmo. A superestrela latina revolucionária deixou tudo no palco na noite de domingo, e valeu a pena. A performance de Karol G no Coachella consolida sua posição como uma nova mãe da música latina.

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