Raquel mergulha no pop em nova fase da carreira: 'Estou numa onda de me divertir'
Após o lançamento de 'Consumo', em parceria com o cantor baiano O Poeta, a cantora e compositora se prepara para o lançamento do 1º disco solo
Pedro Figueiredo (@fedropigueiredo)
Publicado em 20/02/2025, às 14h12
Quem acompanha a carreira musical de Raquel Virgínia conhece a potência da artista. A cantora e compositora foi uma das fundadoras do trio As Baías e a Cozinha Mineira — posteriormente chamado de As Baías —, que acabou em 2021 após uma trajetória de seis anos.
O tempo passou e Raquel voltou sua carreira musical para o pop, como sonhava antes de ingressar de fato na música. Paralelamente a isso, a artista se construiu como uma figura importante no mercado corporativo, como fundadora da agência Nhaí, que classifica como uma "diversitech."
Em conversa com a Rolling Stone Brasil, a artista falou sobre a nova fase musical. Seu lançamento mais recente é a faixa "Consumo," uma colaboração com o cantor baiano O Poeta, uma faixa que tem trazido muitas coisas boas, segundo nos conta Raquel.
"A primeira coisa é a reconexão comigo mesma, sabe? Porque As Baías e a Cozinha Mineira foi um projeto sensacional que eu tenho o maior orgulho de ter feito parte e de tudo que a gente construiu ao longo daqueles seis anos, mas foi um projeto que aconteceu, não era necessariamente o meu sonho musical", reflete.
Antes da banda, Raquel sonhava em fazer música popular e tinha como referências nomes como É O Tchan!, Ivete Sangalo, Spice Girls, Terra Samba, Parangolé, Sandy & Junior e "tudo que era radiofônico". O gosto foi construído a partir do que estava, principalmente, nos programas de televisão populares.
Obviamente, quando conheci Gal Costa, Elis[Regina], Elza Soares, Caetano [Veloso], Tom Jobim, Dorival Caymmi, Luiz Melodia, todos esses gênios e pérolas da música brasileira, me apaixonei e esse é o caminho que me levou para As Baías e a Cozinha Mineira, mas a vontade de fazer música popular ficou guardadinha.
Com o fim da banda, a cantora se voltou para sua vontade. Assim nasce, entre outras faixas, "Consumo," feita pela artista em parceria com o produtor Rafinha RSQ. "Tive a graça de conhecer O Poeta, que é um cantor de pagode baiano com um timbre extremamente maravilhoso."
O resultado foi uma canção solar e pensada no verão e no carnaval. A artista conta que tem gostado da repercussão e chegou inclusive a ser abordada em um shopping de Salvador, onde o trabalho foi elogiado por fãs.
A faixa ainda ganhou um clipe gravado na Feira de São Joaquim, em Salvador. "Ele tinha que ser gravado numa feira," explica. As cores do ambiente complementam o cenário do vídeo, que ainda conta com um ballet. Para Raquel, o vídeo tem a função de amarrar o conceito do que estamos ouvindo. "A música é soberana, mas é no audiovisual que as coisas se fazem pop."
"Consumo," que estará no álbum de Raquel, não deve ser a única faixa do álbum com participação especial. Quando questionada sobre a possibilidade de haver mais colaborações, a cantora diz que quer colaborar "com todo mundo que faça sentido."
O próximo passo da artista é o lançamento de seu primeiro álbum solo, no qual ela pretende explorar coisas diferentes do que já vimos dela até aqui. "Em relação a tudo. Voz, postura artística. Estou numa onda de me divertir. Sempre fiz músicas muito conceituais e filosóficas e dessa vez estou me propondo a me divertir."
O que eu vou trazer é uma postura muito sedutora. Eu quero me divertir seduzindo, ou seduzir me divertindo. É muito essa linha que eu tô buscando nesse momento. Inclusive no sentido político, geralmente se cobra uma carga muito pesada das pessoas trans e eu acho que vou entregar leveza e diversão. A gente tem super esse direito de se divertir também.
Alguns dias antes da entrevista, Raquel esteve em Salvador para uma série de compromissos. Entre eles, o bate-papo "Desafios e conquistas das pessoas trans na cultura", realizado em um shopping da capital baiana. Sobre o evento, a artista refletiu que "as pessoas trans vêm lapidando trajetórias que vão facilitando a nossa fluidez. A gente já vem num debate público bastante potente - que eu também ajudei a construir - mas que outras figuras tantas vêm construindo: Erika Hilton, a Linn[da Quebrada] quando participou do Big Brother, a Majur, na Bahia, com a força dela." Apesar de não achar que os caminhos estejam abertos, ela entende que eles são possíveis e se mostra otimista.
Raquel, no entanto, não se vê como uma referência, mas como uma pessoa que está em construção: "Para ser referência precisa ser uma pessoa grandiosa. Não me sinto grandiosa. Acho que estou construindo uma trajetória. Sou uma trabalhadora que está construindo."
Apesar de não se sentir grandiosa, a biografia de Raquel traz grandes feitos, como uma apresentação feita por ela na sede da Organização das Nações Unidas em Nova York. A cantora é parte do Comitê de Sustentabilidade do Pacto Global da ONU, do qual é signatária com a sua empresa.
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Ela levou um ballet formado por pessoas da comunidade LGBTQIA+ de NY para dentro da instituição pela primeira vez. "Foi muito difícil porque levantar tudo em dólar é um caos. Anitta, tô te entendendo," brinca.
A carreira de Raquel se divide entre a arte e o mundo corporativo. Ela é fundadora da Nhaí, que promove projetos de diversidade na área de comunicação para marcas. "É uma empresa que me dá muitas alegrias, embora seja desafiador, principalmente sendo uma mulher trans negra, mas eu não faria nada diferente. Eu amo ter essa empresa."
Seja nos palcos ou por trás de projetos para grandes empresas, Raquel se apodera da própria história para ir atrás do que sempre sonhou: ser uma cantora popular. Nesse caminho, ela quebra barreiras sem deixar de se divertir.
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